220ª Edição - Ano VII
De 2 a 22 de setembro/2014
 

 
Gilson de Cássia Carvalho, um educador
(In memoriam)


Dr. Gilson em abril de 2014 na FCS/Univap
 
O vazio provocado pela partida inesperada, desavisada, de Gilson desse mundo ainda não assentou na equipe coordenadora do Projeto Curso de Medicina. Vínhamos convivendo muito proximamente com ele, pessoa tão querida, única, rara, que nos convencia sem palavras, apenas com a retidão de suas ações. Em uma das inúmeras ocasiões que se seguiram ao seu falecimento e que, invariavelmente, celebraram a sua vida e os seus feitos na área da saúde, o Ministro da Saúde, Arthur Chioro, equiparou-o a Paulo Freire, pela forma simultaneamente simples, direta e emancipadora de ensinar e se comunicar. Já tínhamos antes feito essa relação - são certamente almas gêmeas. E não estamos falando da semelhança física (que incluía a inconfundível barba), mas dos sentidos do educador - a escuta atenta e reflexiva, o olhar que acolhe, o respeito ao saber dos educandos, os gestos que deixam o locutor à vontade para expor as ideias e o convidam à reflexão crítica e troca construtiva, a materialização das palavras no exercício da vida.
Gilson, nascido sergipano, criado mineiro, crescido joseense e vivido brasileiro, assim como Freire, deixava claro seu posicionamento ético e sua defesa da vida, das pessoas, dos direitos humanos e, claro, do SUS. E na sua trajetória profissional, como médico pediatra, sanitarista, secretário de saúde da cidade de São José dos Campos, assessor e consultor do Ministério da Saúde e de diversos órgãos públicos e da sociedade civil organizada, era sempre reconhecível por esse papel aqui ressaltado - o de educador, aquele que ensina e aprende, ouve e reflete; responde e questiona. Nunca se apropriava dos conhecimentos: "conhecimento é para ser compartilhado, uma vez pensado não tem mais dono".
Seus títulos de mestre e doutor não o levaram inicialmente à Universidade - preferia o caminho da fala direta, nos Conselhos (de saúde, de secretários), congressos, rodas de conversa, cursos de especialização, em diversas universidades e espaços públicos pelo Brasil adentro e afora, além, é claro, da sua casa sempre aberta para outros tantos conselhos e orientações. Desconfiava da rigidez da estrutura acadêmica; do valor desmesurado das técnicas em detrimento das outras dimensões do saber; do linguajar repleto de jargões; do ensino distanciado da prática.
Por isso, quando a professora Emilia, nossa Mirela, convidou-o para coordenar o projeto de Medicina da Univap, ele hesitou: há anos não tinha um vínculo formal de trabalho. Nunca duvidou da proposta, em nenhum instante, ao contrário: foi sempre um entusiasta de um curso na Univap, universidade comunitária, voltado à formação de médicos dentro das diretrizes propostas: profissionais que aliam a técnica à atuação humanista, inseridos desde o início da formação no campo de prática do SUS, cidadãos críticos e reflexivos. Sua aproximação deu-se lentamente: indicou excelentes consultores, que conduziram a proposta inicial, leu o projeto desde a primeira versão e palpitou. Sempre com as observações em vermelho, letra capital e ao lado as iniciais GC, para que soubéssemos quem e o que escrevia. O documento ia e voltava, enriquecendo-se com as contribuições de todos.
Nessas idas e vindas, íamos lá discutir o projeto, ele vinha cá. E um dia, veio definitivamente! Comprometeu-se a ser diretor da futura faculdade. Trouxe seu laptop, dividiu a sala com Mirela e ... acabou nosso sossego. Seguindo seu ritmo entusiasmado, fizemos contatos com Universidades Paulistas, fomos a centros reconhecidos pela qualidade de ensino na área médica, tivemos contato com propostas inovadoras, no Brasil e exterior. Gilson abriu as portas e nos fez atravessá-las, sempre estimulando, instigando, compartilhando. Dizia que há muito tempo não sabia o que era a rotina de sair de casa para trabalhar em outra sala que não a sua (onde acolhia passarinhos e escrevia, entre outras análises, as suas saborosas e instrutivas domingueiras) e achava graça ter que retornar a sua casa para almoço. A gente ria junto e pensava - “que bom!” Vemos nele tudo da pedagogia da autonomia freiriana: a disposição para correr riscos, aceitar o novo e rejeitar a discriminação; a postura humilde e tolerante; a serena convicção na possibilidade de mudanças; a certeza de que a educação é o caminho para uma sociedade mais justa, uma cidadania mais plena.
Como poucos, despertava em nós essa vontade de mudança, tocando nossos corações e nos envolvendo na luta por sonhos e projetos como se fossem nossos desde sua origem - sem fazer a mínima questão da sua autoria. Saía com o seu melhor sorriso, satisfeito e feliz como o jardineiro que semeia a terra, depois rega, cuida, poda e nem sempre colhe os frutos que certamente virão. Tudo isso viveu na proposição do SUS, política e sistema que ajudou a sonhar e construir, do qual tanto se orgulhava e que usufruiu, pois, coerente e firme em seus princípios, foi esse o seu sistema e plano de saúde.
Tudo o que discutimos e aprendemos com esse grande abre-alas (termo que preferia ao título de “mestre" e agora entendemos bem por quê está posto no projeto do curso de medicina. Temos convicção que poremos mais essa utopia gilsoniana em marcha. E será como tê-lo aqui conosco novamente.

 
Drª Paula V. Carnevale Vianna
Professora de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde (FCS) da Univap
Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Planejamento Urbano e Regional do
Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IP&D) da Univap

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