43ª Edição - Ano I
De 18 a 24 de maio/2009
 
 

  Ex-aluno do curso de Educação Física é recordista mundial
Descida de cachoeira em caiaque


 
 
Pedro Oliva Criscuolo, filho da funcionária Neyde Magaly Oliva Criscuolo do Centro de Materiais e Esterilização do curso de Odontologia da Faculdade de Ciências da Saúde, começou a estudar na Fundação Valeparaibana de Ensino, mantenedora da Univap, aos 14 anos, e graduou-se em 2003 em Educação Física pela Faculdade de Educação e Artes. Hoje, com 26 anos, e recordista mundial, Pedro concede ao Informativo Diálogo uma entrevista para falar um pouco de sua história. Em apenas 2,9 segundos, Pedro entrou para a história da canoagem mundial. Esse foi o tempo que ele permaneceu em queda livre, ao despencar os 38,7 metros da cachoeira Salto Belo (MT) dentro do seu caiaque,
 
 
batendo o recorde mundial da modalidade, em abril deste ano.
Durante a descida, o brasileiro atingiu a velocidade de 115 km/h e saiu sem um arranhão. Para realizar a façanha, Pedro contou com o auxílio dos canoístas norte-americanos Benjamin Stookesberry e Chris Korbulic. Foi Benjamin (Bem), que além de esportista é também matemático, quem mediu a queda, fez os cálculos que demonstravam que a descida não era uma insanidade. Chris foi o responsável pela segurança de Pedro na base do Salto Belo. “É uma vitória da equipe, e não minha”, reconhece o ex-aluno da Univap.
Durante 25 dias, o trio percorreu cerca de 7 mil quilômetros para explorar rios e cachoeiras entre os estados de Goiás e Mato Grosso, culminando com o recorde de Pedro. Os rapazes passaram por regiões com características pantaneiras, presenciaram o domínio da soja no Centro-Oeste e chegaram à densa floresta amazônica, no norte do Mato Grosso. “Foi uma queda crescente. Começamos com quedas de 15 metros, passamos para as de 20, até pararmos na de 38 metros”, revela, Pedro. Essa evolução natural trouxe ao grupo experiência e confiança ao longo da viagem. O trio se revezava entre si nas descidas com caiaque e nas imagens captadas, já que Ben e Chris estavam produzindo um filme de caiaques e Pedro, que também é cinegrafista. Depois de assistir à queda do parceiro, os três discutiam entre si as impressões com relação à forma de cair na água e as melhores alternativas para saltos futuros. “Não havia disputa para descer a queda ou uma escolha anunciada. Era natural, e o aprendizado em cada descida servia para todos”, conta Pedro.
 
 
O palco da façanha do canoísta fica em Campos Novos do Paraecis, há quase 400 quilômetros de Cuiabá, cujo município é rodeado por terras indígenas. Depois de conhecerem a queda por fotos, o grupo foi até o local acompanhado dos guias locais e passou a ser observado pelos índios o tempo todo. O processo de medição, análise e reconhecimento da queda levou cerca de três horas. Pedro escolheu com muito cuidado a melhor linha d‘água, ensaiou as remadas até o início do jato d’água e também investiu bastante tempo para se acostumar a manter-se
 
 
calmo a quase 40 metros de altura. Depois de entrar no jato exatamente como tinha planejado, Pedro começou a rodar. Com 13 metros de queda, ele ficou de cabeça para baixo e atingiu a base da cachoeira nessa posição, quebrando o remo com o impacto. Apesar de parecer assustador, esse era o “plano B” já estudado pelo grupo, caso não fosse possível entrar na água de frente. “Dois dias antes, o Ben havia caído dessa maneira, e chegamos à conclusão que seria a melhor alternativa, depois de uma queda perfeita”, explica o ex-aluno da Univap.
O grande volume de água misturada com ar fez com que o impacto da queda ficasse parecido com cair em neve fofa, ao invés de bater na superfície de um lago. Ao ser empurrado para o fundo, Pedro não foi ejetado do caiaque, confirmando então a quebra do recorde. Ainda de cabeça para baixo, ele segurou em algumas pedras para desvirar o caiaque e emergiu atrás da cachoeira. Depois de cerca de três minutos de ansiedade de todos, Pedro surgiu caminhando em meio à névoa da cachoeira, com o caiaque no ombro, e o novo recorde mundial embaixo do braço.

Experiência
O primeiro contato de Pedro com os rios foi através do Rafting. Aos 14 anos ele já era instrutor da modalidade no rio em São Luís do Paraitinga (SP). Mesmo com um bote grande, o canoísta já se aventurava em algumas quedas e corredeiras, quando percebeu que com um caiaque teria mais chance de vencer obstáculos maiores, sem virar. Adquiriu muito rapidamente a linguagem do rio. Conseguia enxergar as linhas com facilidade com pouco tempo de prática. Também aprendeu a escalar para poder usar as técnicas verticais nas paredes e canions, e assim melhorar sua condição na beira dos rios. Nessa mesma época, assistiu a um filme sobre as descidas de cachoeiras e corredeiras com caiaques no rio Futalefu, no Chile, e já começou a se imaginar nesse novo esporte.
O canoísta participa de viagens no Brasil e internacionais (já conheceu 23 países) para a prática da modalidade desde 2003, ininterruptamente. Ele já foi guia de Rafting no Equador e trabalhou como fotógrafo de um roteiro de caiaque na Califórnia, onde tinha que remar quase duas horas para chegar ao local da foto. Em 2007, Pedro esteve em Otawa para o campeonato mundial de freestyle e enfrentou as corredeiras mais temidas do mundo, no rio Zambezi, na África, ficando com o 3º lugar no campeonato Freestyle de caiaque.
Além da expedição de 2009, no Brasil, Pedro já percorreu outros estados, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Tocantins atrás das grandes cachoeiras para descer de caiaque. Em 2008 visitou sete estados, quando teve Ben como parceiro.

 
 
Onde tudo começou

Informativo Diálogo: Em que ano começou a estudar na FVE/Univap e quantos anos você tinha na época?

Pedro: Em 1997 entrei no Colégio Univap lá do centro, aos 14 anos. Optei pelo curso técnico de Administração de Empresas. Foram ótimos anos de minha vida: novos amigos e a oportunidade de aprender técnicas administrativas, que aplico em minha vida até hoje.

ID: Por que resolver fazer o curso superior em Educação Física?
 
 

Pedro: Durante minha vida o esporte sempre esteve em destaque. Meu pai me iniciou no esporte quando eu tinha cinco anos; foram diversas modalidades: do kung fu à ginástica olímpica de alto desempenho, do futebol ao surf, e por fim o rafting e kayak. Curioso é que iniciei minha história no rafting, graças ao Colégio Univap, que me indicou a uma vaga de estágio dentro de uma Ong, para desenvolver trabalhos de educação e preservação ambiental. Dentro da Ong conheci o rafting, e por aí me encontro até hoje.

ID: Você já tinha em mente seguir carreira no esporte do Rafting ou Canoagem?

Pedro: Acreditei que esse esporte poderia me dar um grande futuro, nunca parei de acreditar. Tive momentos muito difíceis, enfrentei todas as dificuldades, quando pessoas próximas me desencorajavam a seguir; cheguei a calçar um tênis dois números menores que meu pé. Meu filho nasceu quando eu estava no segundo ano de faculdade. Tudo isso me tornou mais forte, e hoje celebro algo que está apenas na metade, pois tem muita coisa pela frente!

ID: Quando estudou na Univap você obteve algum tipo de apoio da Instituição para a equipe de Rafting nos campeonatos de que participou?

Pedro: A Univap foi muito marcante na minha vida. Em uma única feira de ciência publicamos oito pesquisas científicas sobre o desporto Rafting; foram mais de quatro trabalhos de conclusão de curso baseados em minha iniciativa, três professores doutores envolvidos; tive bolsa de 100% durante toda a minha história dentro da Instituição, viajei para três campeonatos com total apoio financeiro da Univap. Enfim, tive total apoio!

ID: Quantos foram e quais os resultados trazidos para a Universidade?

Pedro: Os principais resultados foram no campo da pesquisa, graças às publicações e base para trabalhos de conclusão de curso; e um quinto e um oitavo lugar no campeonato brasileiro de Rafting com a equipe Univap. Fomos muito respeitados no meio devido aos nossos resultados em metodologia de treinamento e psicologia de grupo.
Um fato muito marcante: desenvolvemos na Universidade um bote de Rafting com novos conceitos de higrodinâmica. Após a minha conclusão na Universidade esse bote foi encaminhado para uma equipe da cidade de Brotas, na qual eu acreditava que poderia tornar um sonho real: ser campeão mundial!
No ano seguinte os campeões brasileiros tinham utilizado esse mesmo bote. A fábrica tentou por duas vezes copiar as dimensões e não teve sucesso. Até hoje, seis anos depois, o bote continua a ser o mais rápido nas competições nacionais. A equipe que utiliza esse bote tornou-se campeã mundial. Para você ter uma idéia, estou agora na Bósnia, Europa, com esse time defendendo o titulo de campeão mundial, em busca do bicampeonato. Sou integrante deste time.
 
 
ID: Muitas pessoas não conhecem a diferença entre esses esportes, você poderia descrever cada um deles?

Pedro: Rafting: o desporto Rafting utiliza um bote inflável e a bordo vão de duas até dezesseis pessoas - a quantidade de pessoas varia de acordo com o tamanho da embarcação. Principal característica: bote inflável utilizado para transpor corredeiras.
Caiaque Extremo: essa é hoje minha principal modalidade esportiva. O caiaque é fabricado em
 
 
plástico rotomoldado e a bordo dele cabe apenas uma pessoa. Alta mente resistente a impacto com as pedras, possibilita ao remador transpor grandes cachoeiras e corredeiras. Superversátil , o canoísta vai dentro do caiaque e veste uma espécie de saia de neoprene, que evita a entrada de água na embarcação.

ID: Que acontecimento em sua vida foi o ponto marcante que o levou a optar por esse esporte radical?

Pedro: O principal fator foram as sensações que tive quando me aproximei desse ambiente onde vi harmonia entre pedra e água. Explorar rios por onde jamais ninguém passou, quebrar paradigmas, cair em queda livre - são combinações da minha própria natureza. Interagir com a natureza e não desafiá-la - esse é o meu dilema.

ID: Como a sua família se comportou tendo em vista as opções que fez?

Pedro: Por alguns momentos meus pais deixaram de acreditar. Separei-me da mãe do meu filho quando ela me colocou duas opções: ou seguir com o caiaque, ou seguir com ela. Optei pelo caiaque... sem nunca esquecer do meu filho, que se chama Caíque. Mas nos últimos dois anos, minha mãe teve papel vital: ela me encorajou a saltar de 39 metros, e tornou o meu sonho o sonho dela. Compartilhamos juntos a alegria da vitória e a alegria de ser o melhor do mundo naquilo que escolheu.

ID: Quanto tempo você e sua equipe estudaram para ter a certeza absoluta de que aquela queda daria certo?

Pedro: Estudamos dois anos este tema: física e as novas técnicas de queda, e descobrimos que 39 metros pode ser muito, mas também pode ser pouco.

ID: O que sentiu minutos antes de saltar?

Pedro: Uma alegria incrível, porém o medo esteve sempre presente. Isso me fez ser calculista e me prevenir ao máximo.

ID: E depois, já lá embaixo, com o resultado e a repercussão que veio logo depois de sua façanha mundial?

Pedro: Lá embaixo, segundos após a descida, eu estava muito calmo, tranquilo. Me sentia como uma pessoa muito leve, um estado de espírito inesquecível.
Sobre a repercussão mundial, eu não esperava tanto, começou em Londres, através de jornais locais, em seguida Nova York, Nova Zelândia, e Japão, por fim o mundo inteiro. Fui parado na rua aqui na Europa, na Bósnia, uma garota veio me parabenizar pelo salto e, mais uma vez, alguém me chamou de louco! ”Você é louco!!!”
O mais marcante foi minha participação ao vivo nos programas de TV nos Estados Unidos e, claro, quando foi ao ar no Fantástico e milhões de brasileiros assistiram esse drop que entrou para a História.

ID: Que recado você daria para os estudantes da Univap?

Pedro: Para os universitários: Nosso tempo é curto, estaremos vivos por apenas uma geração, o que fica é apenas nosso legado. Construa esse legado e você estará presente na vida das pessoas por centenas de anos. Aproveite seu tempo, seja útil à humanidade, sonhe grande e vá em busca de seus sonhos. Fique atento para não ser egoísta nas opções, lembre-se: vivemos em um mundo de bilhões de pessoas e você pode fazer a diferença!

 
 

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