De 12 a 18 de Janeiro/2009
 
 

  Extração de areia: perda da biodiversidade
Pesquisas desenvolvidas na Univap recuperam o meio ambiente


 
 
As conhecidas cavas de areia, oriundas da atividade de extração de mineral são responsáveis por sérias alterações ambientais. A areia utilizada na construção civil, é um dos bens minerais industriais mais importantes e consumidos para este fim e, consequentemente, o mais significativo em termos de quantidade produzida no Brasil. Por este motivo sua extração constitui numa das atividades com maior potencial de degradação ambiental.
A grande São Paulo, os vales dos rios Paraíba e Ribeira e a bacia do Paraná são as quatro regiões produtoras de areia que abastecem a região metropolitana. O Vale do Paraíba é responsável por mais de 50% de toda a produção e abastecimento da
 
 
grande São Paulo, cuja concentração de extração localiza-se na várzea do rio. Cava seca, cava submersa e lavra em leito do rio são três métodos distintos existentes para a atividade da extração de areia. Na planície aluvial do rio, o processo de exploração por meio de cava submersa é, praticamente, exclusivo, embora esteja extinta no município de Jacareí, desde 1992. As cavas de extração de areia na várzea do rio variam em formato, tamanho e profundidade. As conseqüências são várias e entre elas, a esterilização da superfície do terreno, contaminação do solo, o rebaixamento do leito do rio, o desmatamento e muitos outros danos.
Após aprovação do Decreto Federal 97.632 e da Resolução nº 19 da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, em 1989, as mineradoras foram obrigadas a elaborarem e executarem um plano de recuperação nas áreas degradadas. Entretanto, os projetos aplicados nas minas instaladas na várzea do rio, especificamente no município de Jacareí, tratam somente das questões relativas à revegetação das bordas das cavas abandonadas ou das margens de estradas municipais.
 
A Fazenda Santana do Poço, localizada no município de Jacareí, foi adquirida no final de 2003, pela Fundação Valeparaibana de Ensino, mantenedora da Universidade do Vale do Paraíba, que assumiu as obrigatoriedades legais e propôs um projeto de recuperação e preservação ambiental, denominado: Conhecer para Conservar - a fim de restabelecer as características fisiográficas da região a partir dos conceitos de diversidade de espécies, interação entre elas e a sucessão ecológica. O projeto em andamento vai recuperar 542.410m2, sendo que 266.200m2 referem-se às áreas de proteção permanente (áreas marginais das lagoas e da mata ciliar do rio Paraíba do Sul). Além dessas ações em andamento, novas
 
 
Os primeiros resultados de recuperação da área degradada
discussões estão sendo realizadas por intermédio de
 
 
simpósio, encontros e o desenvolvimento de pesquisas no meio acadêmico.
Em entrevista, a coordenadora do curso de Engenharia Ambiental da FVE/Univap e organizadora do Simpósio: Cavas de Areia – Problemas e Soluções, Profª Drª Maria Regina de Aquino Silva, 45 anos, explica quais são os impactos causados pela mineração.

Como fica a água nesses locais de extração de areia?

Pela liberação de sedimentos finos, como argilas e silte provenientes do processo de lavagem e óleos, o rebaixamento do leito do rio, o incremento da taxa de erosão, perda da mata ciliar acabam por resultar na alteração da qualidade das águas.

E quanto à biodiversidade local?

O desmatamento, perda do solo, afloramento do lençol freático na área da cava, erosão das margens e a modificação da fisionomia do local com abandono de entulhos e equipamentos resultam na perda direta de espécies de vegetação e de animais, conseqüentemente na diversidade genética e de habitat.

Como avalia a qualidade de vida das pessoas que residem perto dessas extratoras de areia?

Esses ambientes abandonados possibilitam a ocorrência de acidentes com animais peçonhentos em razão dos entulhos e detritos advindos da extração. Trabalhadores e vizinhos situados no entorno do empreendimento devido aos ruídos produzidos pelas máquinas perdem muito a sua qualidade de vida, isso sem falar do impacto visual que está associado à retirada da vegetação e a estocagem de areia.

Quantos universitários estão envolvidos no processo de recuperação?

Além da disciplina de Recuperação de Áreas Degradadas, que envolve por semestre cerca de 40 alunos, no final de 2008, foram apresentados sete TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso) à Banca Examinadora, entre eles: Avaliação das Perdas do Solo e Capacidade de Uso de Uma Área em Recuperação, de autoria de: Arthur Aquino Bandoni Carrega; Recuperação de Uma Área Degradada pela Extração de Areia: Uma Proposta Alternativa, de autoria de: Daiana Toledo Martins do Prado e Luara Diamante Munholi; Indicadores de desempenho de recuperação de Mata Ciliar de Cavas de Areia, de autoria dos alunos Marcos Roberto Simão e Denise da Silva Santos; Caracterização e Perda de Solo em Área Degradada, de autoria de Ricardo Fabricio Lima Bezerra; Eutrofização de Cava de Areia: Causa e Soluções Ambientais, de autoria de Paulo Roberto Cordeiro Leone; Influência da Adubação de Cobertura em Diferentes Espécies Nativas em Áreas Degradadas, de autoria de Reginaldo Soares de Freitas e Uso do Colar Protetor de Mudas no Manejo de Ervas Daninhas no Plantio de Espécies Nativas em Áreas Degradadas de autoria de Rogério Zawolski.
Os trabalhos desenvolvidos foram orientados por pesquisadores do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Universidade, Prof. Dr. Eduardo Jorge de Brito Bastos, Profª Drª Maria Regina de Aquino Silva e Prof. Dr. Milton Beltrame Júnior.
 
 
A Universidade realizou em outubro passado um Simpósio para discutir os problemas e as soluções a respeito das cavas de areia. Quais instituições participaram das discussões e o que ficou definido?

O Simpósio: Cavas de Areia – Problemas e Soluções - realizado de 6 a 10 de outubro de 2008, na Universidade do Vale do Paraíba, em São José dos Campos, foi proposto para que tivéssemos num primeiro momento uma abordagem teórica sobre o assunto. Foram tratados temas relacionados a questão da extração de areia e suas diretrizes. Tivemos uma explanação teórica do ponto de vista da ecologia, numa palestra proferida pelo Prof. Dr. José
Galizia Tundisi, um dos especialistas mais conceituados no Brasil e no mundo, quando o assunto é água. Além dele, a apresentação da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo; do Instituto
A Profª Maria Regina e o aluno Rogério Zawolski, do Curso de Engenharia Ambiental, durante o desenvolvimento do TCC: Uso do Colar Protetor de Mudas no Manejo de Ervas Daninhas no Plantio de Espécies Nativas em Áreas Degradadas
 
 
Geológico; do Sindareia e outras instituições foram relevantes, pois a Universidade reuniu nesses dias aproximadamente quatrocentas pessoas interessadas nos assuntos relacionados ao meio ambiente.
Ficou também definido, numa carta de intenções, que mais estudos devem ser realizados a fim de nortear a recuperação destas áreas, porque, veja bem, não podemos colocar uma vegetação arbórea de grande porte em uma área, cujo solo e propriedades ecológicas não são desenhados para isso. É neste ponto que o projeto da Univap Conhecer para Conservar, faz a diferença, pois ele busca identificar as particularidades do ambiente de forma que a resposta do ecossistema restaurado seja a mais próxima possível do que é estabelecido por essas particularidades.
 
 

Infografia Cavas - Modelo de lavra de areia ou cascalho por dragagem hidráulica em cursos d’água (Fonte: CAMPOS, 2006)
 
 

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